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O menino da «candeia de Nosso Senhor» e o cuidado de Deus que repara a criação

O menino da «candeia de Nosso Senhor» e o cuidado de Deus que repara a criação

O menino da «candeia de Nosso Senhor» e o cuidado de Deus que repara a criação

A iniciação do Francisco à relação com Deus, pelas mãos do Anjo e de Nossa Senhora, fez-se de silêncio. Via-os, mas não os ouvia. Deste encontro assim configurado alimentou a sua particular sensibilidade contemplativa, aprendendo a escutar no silêncio do coração a voz do Deus que se faz ouvir no silêncio (cf. 1Rs 19,11-13; Mt 6,6) e que olha ao coração (cf. 1Sm 16,7). Aprendeu o Francisco, deste modo, a centrar-se no essencial, nesse Deus que suspira por ser tudo em todos (cf. 1Cor 15,28) e para quem o pastorinho contemplativodeseja que tudo e todos cheguem a confluir.

menino dacandeia de Nosso Senhor, para cuja beleza não encontra par (cf. Lúcia de Jesus, Memórias, p. 137), orienta o nosso olhar para essa candura que habitou o seu, que, preenchido de amor, tudo aprendeu a amar com esse mesmo amor que acolheu, fez seu e a que desejou corresponder. Podemos dele aprender a reconhecer a força da dinâmica do dom, tão oposta à dinâmica da posse. Esta é destruidora «do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz» (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2019, §4). O amor e o dom, por seu lado, levando ao reconhecimento de Deus como o tudoda vida, introduzem numa espiral expansiva de iguais amor e dom, reconhecendo o próprio «Deus em tudo o que existe» (Papa Francisco, Laudato si’, n.º 87) e adorando-o pelas e com as maravilhas da sua criação. Como o de Assis e com o mesmo espírito do de Roma, também o Francisco de Fátima pode cantar: «Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão sol […]: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem» (Francisco de Assis, Cântico das criaturas).

O «mistério de salvação […] é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação» (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2019, §1). Percebeu-o bem no seu íntimo o pequeno Francisco, que à amizade profunda com o Escondido, que no íntimo do coração se lhe desvelou e lhe falou, soube associar uma generosidade sem barreiras nem limites que se estendeu às criaturas que, consigo, cantam o louvor do Criador (cf. Sl 148). Com o cuidado de Deus, a quem só queria consolar, entrelaçou profundamente o cuidado compassivo e solidário do outro, que desejou que bebesse do mesmo amor e da mesma beleza indizível de Deus que o maravilhavam, numa dinâmica de bondade que amplificou o cuidado reparador até à desmesura, mesmo na simplicidade – até aos passarinhos que alimentava e àquele que generosamente resgatou: «Tem cautela! Não te tornem a apanhar» (Lúcia de Jesus,Memórias, p. 158). Dele aprendamos a ser criaturas-com-a-criação-para-o-Criador.

 

André Pereira

Terça, 11 de Junho de 2019