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“OS ROSTOS QUE VEEM: FRANCISCO, JACINTA E LÚCIA” ​​​​​​​

Nunca saberemos que parte de nós é tocada, ao fixarmos um rosto. Esta intuição, de Milan Kundera, tem-me acompanhado ao longo dos anos. Inúmeras vezes a tenho experimentado como verdade: há rostos que, uma vez fixados, atentamente ou apenas de relance, nos tocam, num lugar dentro de nós a que costumamos chamar alma, ou coração, e que deixam marcas insuspeitadas, mas indeléveis.
Naturalmente, isto acontece olhando para o rosto dos três videntes de Fátima. Algo em nós vibra quando olhamos para eles. Contudo, antes de entrarmos no mistério de que parte de nós é tocada ao fixarmos os seus rostos, surge uma pergunta prévia: que recanto dos seus corações foi tocado ao contemplar o rosto da Mãe de Deus… o rosto luminoso do Anjo da Paz?
Francisco, Jacinta e Lúcia foram visitados pelo Anjo da Paz, em 1916 e pela Virgem Maria em 1917. A Lúcia descreve-a assim: “era uma Senhora mais brilhante do que o sol”. Atraídos por aquilo que suponham ser um relâmpago, aproximam-se da azinheira, na Cova da Iria. E, continua a Lúcia: “estávamos tão perto Dela, que ficávamos dentro da luz que Dela irradiava”. Fazem a experiência de Deus naquela luz que a Virgem Maria transportava, que a Senhora do Rosário lhes mostrou. Esta experiência de Deus, como luz, leva os pastorinhos a ter um olhar renovado, um olhar interior, porque se veem a si mesmos em Deus. E a partir desta experiência fundante das suas novas vidas poderemos vislumbrar como foram tocados pelo rosto de Deus que brilhava no rosto luminoso da Senhora do Rosário.

1 | O rosto transfigurado de Francisco Marto
Conduzidos pela pena da Lúcia, que nos revelou a beleza interior do seu primo, iremos saber que é esta LUZ, este brilho de Deus o que mais tocou as fibras íntimas do coração do menino, pois, como dizia a Lúcia: “O que mais o impressionava ou absorvia era Deus, a Santíssima Trindade”.
Após a aparição de 13 de outubro dirá o Francisco: “Gostei muito de ver Nosso Senhor. Mas gostei mais de O ver naquela luz onde nós estávamos também. Daqui a pouco, já Nosso Senhor me leva lá pró pé d’Ele e, então, vejo-O sempre”.
O Francisco já não se entende sem Deus: gostei mais de O ver naquela luz onde nós estávamos também! O menino que, com o olhar entusiasmado, seguia todos os raios do sol, quando este nascia ou no seu ocaso, é o contemplativo da beleza de Deus, quer do esplendor que irradiava do sacrário, quer da beleza que intuía presente na sua alma habitada pela Trindade… o que mais gostava era de ver Jesus naquela luz, onde ele estava também!
O rosto do Francisco parece-me ter algo do rosto de Moisés, que ao descer do Monte Sinai após o encontro com Deus, resplandecia de tal forma que com dificuldade se podia fixar nele o olhar (cf. Ex 34, 29). Ou parece-me ter algo do rosto de Elias, que no Monte Horeb mal ouviu o murmúrio da brisa suave, cobriu o rosto com o manto… (cf. 1 Rs 19, 13-14). Também o Francisco, revestiu o seu rosto interior com as contas do seu rosário, aquelas que tecem o manto da Senhora do Coração Imaculado, assemelhando-se, no final da vida, ao rosto de Cristo transfigurado, no monte Tabor.
Jesus transfigura-se na companhia de Moisés e Elias, enquanto falavam da sua morte, que estava próxima. Francisco, na prisão, falando com a Jacinta e a Lúcia da possibilidade de martírio que se avizinhava, estava apenas empenhado em animar a irmã, mostrando, como confirma o testemunho de Lúcia, um “rosto bastante animado”, “com imensa paz e alegria” .
Como Elias, Francisco arde de zelo pelo Senhor e pelas suas coisas, um zelo que preenche os seus dias e as suas noites. Vejamos o que diz pai: “Certa noite, ouvindo-o soluçar perguntou-lhe porque chorava; o filho respondeu: «Pensava em Jesus que está tão triste por causa dos pecados que se cometem contra Ele»”. Francisco bem podia rezar com o salmista: “quando no leito vos recordo, passo a noite a pensar em Vós” (Sl 63, 7).
Como Moisés, o amigo de Deus, Francisco vive movido pelo único desejo de «consolar e dar alegria a Jesus». Entrega-se a uma vida espiritual intensa chegando a uma verdadeira forma de união mística com o Senhor. Deus é a verdade mais profunda do menino de Aljustrel!
Apesar de ser de poucas palavras, “sorria mais do que falava” , sabia ter a resposta adequada na hora certa. Recordo os que lhe prometiam tesouros a fim de que ele revelasse o segredo. Recusava tudo o que lhe ofereciam com um simples: “nem que me deem o mundo” .
O Francisco sabe que no céu tem a sua pérola de incomparável valor… e assim, com esta certeza, parte… antes de morrer diz à mãe (são estas as suas últimas palavras): “Ó minha mãe, olhe que luz tão bonita ali está na nossa janela” . E depois, conta a Tia Olímpia, “deu um ar de riso” e partiu. Partiu guiado por aquela LUZ, a luz onde se encontrou com Deus e consigo mesmo…

Assim, voltamos à pergunta da Introdução: que parte de nós é tocada quando contemplamos o rosto do Francisco?… Este rosto que chama para dentro, ou para o alto, não sei bem dizer.
O Francisco toca aquela porção de mim que se sente mais insegura por não ser ou não me sentir amada como sou… toca aquela parte de mim que receia não ser aceite, que queria ser mais do que é… que até aceita viver de aparências, fugindo da verdade mais profunda…
No rosto do Francisco, que viu Deus e se viu em Deus, na verdade mais profunda de si mesmo, encontro o desassombrado apelo para ser quem sou, sem maquilhagens, sem máscaras, sem me tentar defender, sem a tentação tão contemporânea de viver a partir da imagem que eu quero que os outros tenham de mim…
Sinto o apelo a ser amiga de Deus a partir da intimidade que só a oração concede e que só nessa amizade darei vida à minha identidade.
Sinto o apelo do Senhor que quer que eu “arda em zelo pelas suas coisas”, sabendo-me responsável pela presença de Deus na história. Como diria Etty Hillesum: “uma coisa se vai tornando cada vez mais clara para mim: […] e é isso que realmente importa: que salvaguardemos esse pedacinho de ti, meu Deus, dentro de nós […], nós temos de te ajudar a ti a defender o lugar da tua morada dentro de nós até ao fim”.
Francisco é este rosto transfigurado que me revela a beleza de Deus e me desafia a defender o lugar da morada de Deus, dentro de mim… até ao fim.

2 | O rosto dedicado de Jacinta Marto
A vida da Jacinta foi definitivamente marcada pelo que viu no Coração de Maria, naquela luz tão grande que irradiava das suas mãos. Pensemos na forma como a Jacinta vai olhar para as circunstâncias históricas que lhe são dadas a viver, para as pessoas com quem contacta, para tudo o que viu, sobretudo no segredo – o inferno, a história do século XX nos seus maiores dramas da guerra, da fome, das doenças, a perseguição à Igreja. A Jacinta vai olhar a história, as pessoas – ouso dizer –, com o mesmo olhar de Deus, um olhar de misericórdia, um olhar de compaixão e vai dedicar a sua breve existência a tentar reparar as brechas que o pecado provoca na vida das pessoas, das instituições, da sociedade.
O seu coração foi tocado pela compaixão do próprio Senhor, aquela compaixão com que olha para as multidões, porque são como ovelhas sem Pastor (cf. Mt 9, 36). Sim, a Jacinta vai seguir com o Pastor pelos caminhos da cidade dos homens, a oferecer a mão da sua caridade e o olhar da sua esperança a todos os que se encontravam espiritualmente frágeis, mais debilitados no espírito, do que ela mesma no corpo fraquito e delgado… e faz isto para que se encha a sala do banquete.
Ao rezar a vida da Jacinta, veio-me à memória uma das parábolas que Jesus contou, para falar do céu, do Reino de Deus: a parábola do grande banquete, onde o dono da casa manda o seu servo em busca dos convidados (cf. Lc 14, 15-24). Os ricos (os que querem vender os campos, animais), os poderosos, os muito ocupados com as suas próprias coisas, não querem ir, negam o convite para o banquete… então, o dono da casa ordena ao seu servo, quando este lhe contou que ninguém queria participar: “«Sai imediatamente às praças e às ruas da cidade e traz para aqui os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos». O servo voltou e disse-lhe: «Senhor, está feito o que determinaste, e ainda há lugar»” (Lc 14, 21-22).
A inquietação da Jacinta, o seu ser “insaciável na prática do sacrifico” , nasce aqui: ela sabe que ainda há lugar, portanto tem de levar mais e mais gente para o banquete! Ela assume como sua a missão deste “servo” da parábola… tem de convencer mais gente a ir ao banquete. Contudo não se apoia na força persuasiva das palavras – sabe que não tem esta força (tal como dirá Paulo de Tarso que a sua pregação nada tem dos argumentos persuasivos da sabedoria humana, [cf. 1 Cor 2, 4]) – mas usa a força do seu amor… A forma que vai utilizar é a mesma do Senhor Jesus: com o dom de si, com a sua vida oferecida como um sacrifício espiritual. Com uma vida vivida levando até ao fim os compromissos de amar, de reparar, totalmente dedicada a oferecer-se por aqueles por quem Jesus se ofereceu: os doentes, os pecadores, os pobres, a Igreja, o Papa.
Vejo no rosto da Jacinta o rosto da menina que se deixava fascinar pela lua nas noites de luar, que se deixava iluminar pelo Coração Imaculado de Maria, a candeia que brilha nas noites… é assim que a contemplo, a menina que ilumina as noites da minha vida, da nossa vida, com a sua vontade e a sua entrega apaixonada pelo rebanho do seu amado pastor, com o seu “disse-lhe que sim”  a mais algum tempo de oferta em favor dos outros.
Sabemos que apesar de expansiva e alegre, na companhia da prima e do irmão, a Jacinta era tímida diante de estranhos e, nos infindáveis interrogatórios, não falava. A Jacinta tinha “como inabalável resposta, a maior parte das vezes, o silêncio”. Ninguém lhe conseguia arrancar uma palavra, por mais diligências que empregassem.
Como em tantas outras coisas da sua vida, que já exploramos em outros momentos, a Jacinta também nisto se assemelha a Jesus. Durante os interrogatórios a que sujeitaram Jesus no seu julgamento, o Senhor preferiu, na maior parte do tempo, o silêncio… Em Jesus, e na Jacinta também, as suas palavras pouco acrescentariam àquilo que as suas vidas já tinham dito.

Então, que parte de nós é tocada quando contemplamos o rosto da Jacinta?…
O seu olhar arrojado e incisivo, inquieta-nos… Jacinta olha-nos de frente, desafiando-nos a tomar consciência da seriedade da vida.
O seu olhar desassossega-me. Não me deixa espaço para indecisões, nem tempo para as minhas hesitações. É um olhar que tem pressa e chama para fora.
Aquele olhar, num rosto de criança, reclama da minha vida adulta, imperturbável, a resposta à pergunta: «que fazeis?».
Olhar o seu rosto que viu, que viu o que eu nunca saberei, confronta-me com a beleza inaudita de uma criança que ousa transportar na vida uma luz para iluminar as noites. É para todas as noites da história, incluindo da nossa história pessoal, que esta pequena Santa quer ser uma luz amiga, uma presença poderosa, ainda que discreta. E por isso tremo, tremo ao confrontar-me com esta menina.
A sua entrega dedicada incomoda a minha preguiça, o meu medo, a minha indiferença… tantas desculpas com que vou legitimando a minha pouca generosidade na entrega da minha vida, a Deus e aos meus irmãos.
Por isso, o seu rosto desperta em mim o desejo de me oferecer, com inteireza, ao serviço desta luz, que eles possuem no seu olhar, mas que querem transmitir. Uma luz de esperança e de confiança que começou a brilhou neste mundo partir do rosto de Cristo, e que agora brilha a partir do olhar dos seus amigos, como a Jacinta.

3 | O rosto determinado de Lúcia de Jesus
Gostaria que pensássemos na Lúcia, mas no seu rosto maduro, o rosto que mais familiarmente conhecemos… um rosto decidido, enrugado, um rosto onde os seus olhos se escondem por detrás de uns óculos que sempre a identificarão.
Tentemos entrar no seu coração a partir do seu rosto que viu, na infância, o Anjo e o Coração Imaculado de Maria, e que, ao longo da sua vida, procurou compreender o que tinha visto… lendo dentro de si, nas suas memórias, a densidade de uma mensagem que não cabe nos limites estreitos de 1916, 1917, 1925 e 1929.
Três rostos maternos tocaram a alma de Lúcia… O rosto de sua mãe, Maria Rosa: a mulher que a deixou impressa com o amor pela verdade, o desejo do cumprimento do próprio dever… O rosto da mulher mais brilhante do que o Sol, que lhe comunicou a missão e que lhe assegurou ser o seu refúgio e caminho para Deus. E o rosto de Teresa de Ávila, que Lúcia contemplou com o seu olhar interior, adulto, durante mais de 50 anos.
Agora dedico-me mais ao impacto que poderá ter tido na vida de Lúcia de Jesus o rosto de Teresa de Jesus. Quando penso em Lúcia e no seu estilo persistente de anunciar o que tinha visto e ouvido, imediatamente me vem ao pensamento uma frase da Santa de Ávila: “…aos que querem ir [pelo caminho do Céu] sem parar até ao fim, […] digo que importa, ter uma grande e muito determinada determinação… de não parar até chegar a ele, venha o que vier, suceda o que suceder, trabalhe-se o que se trabalhar, murmure quem murmurar, quer lá se chegue, quer se morra no caminho…”.
Importa ter uma muito determinada determinação! E Lúcia tem esta muito determinada determinação. Toda a sua vida. Em Fátima, enquanto simples pastorinha, no Porto e em Espanha, enquanto Doroteia e, por fim, em Coimbra, enquanto Carmelita. Lúcia vai ser inteira, igual a si mesma, sempre: nunca deixará de falar, de repetir, de insistir… Superando todos os obstáculos e dificuldades que chegam de todos os âmbitos da vida eclesial e social, vai anunciar o que o Céu lhe comunicou e vai transmitir os pedidos de Deus e de Sua Mãe.
Lúcia vive por um motivo, para uma missão: difundir no mundo a devoção ao Coração Imaculado de Maria, garantir que os seus pedidos são cumpridos. E Lúcia não para enquanto a Igreja não chega ao cumprimento desta vontade de Deus! Por isso, a sua determinação recorda-me uma expressão de Jesus, quando num determinado momento, “endurece o rosto e parte resolutamente para Jerusalém” (Lc 9, 51).
Lúcia foi tocada pela luz de Jesus Cristo, este homem que avança na vida, resolutamente, tendo por meta a cidade de Jerusalém, onde mostrará o rosto amado do Pai, onde dará a vida até ao fim, onde se entrega para que todos tenham vida e vida em abundância. Assim é a Lúcia, que resolutamente avança na vida, como Jesus Cristo, cujo alimento foi fazer a vontade do Pai, que lhe foi mediada pelo olhar e pelas palavras de Maria. Creio que a Lúcia, ao contemplar o rosto de Jesus ao longo da sua vida, foi tocada por esta inteireza, por esta resolução, por esta determinada determinação.

Então, que parte de nós é tocada quando contemplamos o rosto da Lúcia?…
Vejo as marcas que o tempo imprimiu na sua face: as suas rugas falam-me da fidelidade de uma vida. Que privilégio ter rugas…
O rosto da Lúcia traz-me a realidade. Diz-me que o dom, porque é dom, pode ser dado a qualquer um, e que Deus escolhe e se serve do que aparentemente, e só mesmo aparentemente, parece não servir para nada. As suas feições austeras e despretensiosas – que em nada coincidem com a perfeição das formas e dos traços que caracterizam os protagonistas dos grandes filmes – hospedam em mim e na humanidade a desejada certeza de que todos servimos para o Reino de Deus: ainda que haja rugas!
Também uns óculos marcam o seu rosto. A Lúcia precisou de ajuda para ver. E esses óculos mais não são que metáfora da vida que não se faz sozinho, por onde não se caminha sozinho, uma vida que precisa de mediações para ler os acontecimentos na sua verdade. Esses óculos que lhe permitiram ver de forma cada vez mais nítida, adicionam profundidade à sua visão e permitem-lhe cavar, escavar, cada vez mais intimamente, o mistério que lhe foi dado anunciar e viver.
Esse rosto que fala de solidão, e ao mesmo tempo de companhia, toca o meu desejo de não caminhar só. E toca também alguma tentação de autossuficiência.
Sei que ela ouviu Nossa Senhora dizer-lhe: “Eu nunca te deixarei. O Meu Coração Imaculado será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus” . Lúcia de Jesus, no Carmelo de Coimbra, até ao dia da sua morte, é testemunha fiel desta promessa. E lança-nos o desafio de, na fidelidade à vocação que Deus vai dando a cada um de nós, sermos transportadores de uma palavra de paz.
Por isso, o seu rosto determinado fala-me da fidelidade de Deus e do desafio a ser fiel a Deus. Até ao fim.


As vidas de Francisco, Jacinta e Lúcia, convidam-nos a tomar consciência de que a missão da Igreja é, e será sempre, a de transparecer a glória do Ressuscitado, através das nossas vidas transfiguradas no seu amor… a de dedicarmos toda a nossa força ao serviço daqueles que o Senhor quer convidar para o Banquete do seu reino… é que ainda há lugar!… a de persistirmos no caminho da nossa vocação, com uma muito determinada determinação, até Cristo ser tudo em todos (cf. 1 Cor 25, 28)!
Como bem intuiu o Papa Francisco, podemos neles descobrir «novamente o rosto jovem e belo da Igreja», apesar das rugas!

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Ângela de Fátima Coelho, asm
2 de junho de 2021