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Não ceder aos desastres

Há alguns meses que me ocupam as questões: como podem o Francisco e a Jacinta iluminar este nosso tempo? Como pode, o seu modo de agir ser iluminador – afinal, são Candeias – de um tempo como o nosso, carregado de debilidade e de morte?

Também eles viveram uma pandemia muito parecida à nossa, aliás foram vítimas dela.

Mas, trata-se disto apenas, ou seja, serão apenas os últimos meses das suas vidas iluminadores desta nossa vida, marcada pelo medo da doença, do contágio, da solidão e do isolamento, da perda de gente querida, de ausência de tantos gestos de afeto…?

Relendo um texto de Sophia de Mello Breyner, encontrei uma citação que a autora faz de Antígona: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres”.[1]

Imediatamente pensei em São Francisco e Santa Jacinta. Eles também pertencem ao número daqueles que não aprenderam a ceder a nenhum dos desastres da sua vida. Tocaram a dor, a solidão e a doença com as suas mãos tão pequeninas, mas carregadas da esperança que lhes tinha sido depositada pela Senhora do Rosário.

Assumiram nos seus corações de crianças, com a inocência batismal tornada ainda mais luminosa pelo brilho da Senhora que os revestiu de Deus, a dor imensa de quantos se afastam d’Ele, de quantos escolhem viver na escuridão que vem aquando do afastamento da luz que irradia do Coração de Jesus.

Diante das dificuldades, das contradições, dos inúmeros e extenuantes interrogatórios a que foram sujeitos, diante dos intermináveis dias na prisão – sim, três dias ausentes dos pais, falhando ao encontro com a Senhora de Coração Imaculado, podem parecer intermináveis – não cederam! Não cederam ao desânimo, à tristeza excessiva que os podia impedir de viver na paz prometida pela Senhora.

Mas, não nos iludamos, esta força excecional não provinha deles. Nascia do encontro confiante, feito na intimidade da adoração a Jesus Escondido, que sentiam como próximo, como amigo: “Não sei como é! Sinto a Nosso Senhor dentro em mim. Compreendo o que me diz e não O vejo nem oiço; mas é tão bom estar com Ele!” (MIL, 131)[2].

Nascia da fortaleza que brotava da bondade de Nossa Senhora – “Que boa é aquela Senhora! Já nos prometeu levar para o Céu!” (MIL, 46)

Viviam a partir da meta, o céu, e isto deu densidade às vidas, deu consciência à entrega, deu a paciente capacidade de colaborar com a história da salvação. Quando quiseram assustá-los com a morte, na prisão, apenas responderam: “– Se nos matarem, é o mesmo; vamos para o Céu.” (MIL, 94).

Nunca deixaram de valorizar e de apreciar as coisas pequenas da vida, a beleza simples do pôr do sol, do nascer das estrelas, da lua que lhes recordava a Mãe de Deus. Sorriam e desfrutavam da música tocada e cantada juntos, da dança ao som do pífaro do Francisco, do caminhar devagar pelos montes, colhendo flores e cuidando do rebanho. Mas a tomada de consciência do sofrimento do mundo, da vulnerabilidade física, psicológica e espiritual que marcava um mundo tocado pela I Guerra Mundial e pela pandemia, intensificou o seu desejo de oração de intercessão por todos os pobres do seu tempo. Nenhum sofrimento foi alheio à sua oração, revelando uma solidariedade para com os pecadores e os desolados que comove.

Contudo, creio que o mais profundo segredo da sua resistência interior a tantas situações difíceis foi a contemplação da Paixão e Morte de Nosso Senhor e a sua docilidade à ação do Espírito Santo que os movia a desejarem fazer como Nosso Senhor.

Vale a pena recordar este precioso diálogo entre a Jacinta e a Lúcia:

“Mandei-a, então, dar-lhe [ao irmão da Lúcia] um abraço e um beijo, mas ela respondeu:

– Isso, não! Manda-me outra coisa. Por que não me mandas beijar aquele Nosso Senhor que está ali? (era um crucifixo que havia pendurado na parede).

– Pois sim – respondi. – Sobes acima duma cadeira, trá-lo para aqui e, de joelhos, dás-lhe três abraços e três beijos: um pelo Francisco, outro por mim e outro por ti.

– A Nosso Senhor dou todos quantos quiseres.

E correu a buscar o crucifixo. Beijou-o e abraçou-o com tanta devoção, que nunca mais me esqueceu aquela ação. Depois, olha com atenção para Nosso Senhor e pergunta:

– Por que está Nosso Senhor assim pregado numa cruz?

– Porque morreu por nós.

– Conta-me como foi.” (MIL, 39)

Conversaram acerca da Paixão de Jesus e estas longas horas de reflexão e de contemplação deram-lhes a sabedoria de coração para entenderem o modo como Jesus viveu o seu sofrimento e a sua morte. Sob a ação do Espírito Santo, sob a orientação da Mãe de Jesus, cresceram na compreensão e na vivência cristã do sofrimento, indo progressivamente conformando-se com os sentimentos de Jesus Cristo. Olhando para Jesus crucificado foi o modo como aprenderam a viver as ocasiões em que a sua entrega era feita de cruz, ao estilo de Jesus.

Jesus Cristo mostrou a sua confiança total no Pai quando, do alto da cruz, apesar de perceber a presença do Pai como ausência, reza: “Pai, nas tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lc 23, 46). Não será esta a única forma de não cedermos aos desastres?

Que aprendamos a rezar, com Jesus, como os Pastorinhos, no coração mais denso desta hora:

Nas tuas mãos, Pai, vivo… nas tuas mãos, Pai, vivo este tempo e desejo viver a minha eternidade.

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Ângela de Fátima Coelho, asm


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, palavras proferidas em 11 de julho de 1964, por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuído a Livro Sexto.

[2] MIL – Lúcia de Jesus, Memórias da Irmã Lúcia vol. I, Fundação Francisco e Jacinta Marto, 2017.