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Lúcia de Jesus: uma vida plena de LUZ

Ângela de Fátima Coelho

Para quem tem por missão apresentar uma síntese biográfica da Irmã Lúcia, o maior desafio que tem pela frente é condensar a abrangência de uma longa vida, a intensidade da sua história, o significado e o impacto mundial da sua figura, a importância da sua missão. Não lidamos, no caso da Irmã Lúcia, com a mesma simplicidade de figura que encontramos em Francisco, o Adorador e Consolador de Jesus, ou em Jacinta, a santa mais pequenina da história da Igreja, aquela que viveu a sua vida como um dom, oferecendo-se para reparar o mal do mundo.

Como é impossível dizer a Lúcia num breve texto, desejamos apenas que esta reflexão possa louvar a ação da Santíssima Trindade na vida desta mulher que soube manter a lâmpada acesa, como as jovens do Evangelho que esperam o noivo (cf. Mt 25, 1-10).

Para apresentar a figura luminosa de Lúcia de Jesus, e o seu exemplo de vida evangélica, escolhemos um aspeto: o aparente paradoxo de se saber profeta da mensagem que o Céu lhe entregava e o sentir crescer dentro de si a vocação para a vida contemplativa no Carmelo.

1. Lúcia e a vocação de profeta para um mundo em sofrimento e em mudança

Após a intensa experiência de Deus, a 13 de maio de 1917, Lúcia vai ouvir, dos lábios da “Senhora mais brilhante do que o sol”, a sua vocação, o que Deus lhe pede: «Tu ficas cá […]. Jesus quer servir-se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração».

Jesus quer servir-se de ti para

Nesta frase da Virgem Maria encontra-se, de forma explícita, o chamamento de Lúcia. Ela tem, desde muito cedo, a consciência de que esta é a sua vocação, tal como escreverá 80 anos mais tarde, ao fazer uma leitura da sua vida à luz da mensagem de Fátima: «Era a Missão que Deus me destinava».[1]

Franco Manzi, no seu livro As crianças-profetas de Fátima, refere que uma chave de leitura capaz de clarificar a vida dos três pastorinhos e, mais amplamente, a vida de Lúcia, é o profetismo do tempo da Igreja. Como ele, estamos conscientes de que é o «Espírito Santo quem continua a dar o carisma profético a homens e mulheres que acreditam em Cristo, no tempo da Igreja, tal como suscitou os profetas do Antigo e do Novo Testamento».[2]

Deixemo-nos iluminar pela figura do profeta Ezequiel, extraindo da sua vida e do seu ministério profético uma fonte de inspiração para aprofundar o carisma de Lúcia, para entender a sua missão, para acolher os desafios que nos deixa, não apenas com as suas palavras, escritas por obediência, mas também, e sobretudo, pelo testemunho da sua vida. Escolhemos Ezequiel porque a sua época assemelha-se, em tantos aspetos, à nossa: “está na encruzilhada entre um mundo que se desmorona e um outro que nasce”.[3]

Ezequiel exerceu o seu ministério profético entre os exiliados da Babilónia, num tempo que vai desde o anúncio da queda de Jerusalém, da destruição do templo e da deportação para a Babilónia: «Filho de homem, dirige-te à casa de Israel, e leva-lhes as minhas palavras. […] Todas as palavras que Eu te disser, guarda-as no teu coração, escuta-as com toda a atenção. Levanta-te e vai ter com os exilados, os teus compatriotas. Fala com eles e diz-lhes: Assim fala o Senhor DEUS, quer eles ouçam, quer não ouçam» (Ez 3, 4.10-11).

A vocação de Lúcia nasce no final da Primeira Guerra Mundial. E a mensagem que veicula dirige-se a um mundo que se encaminha inexoravelmente para a Segunda Guerra, o horrífico conflito que, segundo a mensagem profética que Lúcia comunica, poderia ter sido evitado se os pedidos de Nossa Senhora tivessem tido acolhimento pela humanidade: «se fizerem o que Eu vos disser salvar-se-ão muito almas e terão paz, se não… começará uma guerra ainda pior…» (13 de julho de 1917).

A sua atividade profética desenvolver-se-á ao longo de toda sua vida, que abrangeu os momentos mais dramáticos e decisivos do século XX, dos quais foi testemunha: a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Concílio Vaticano II (1962-1965), a Guerra Fria (1945-1991) e a queda do muro de Berlim (1989).

Contudo, a mensagem que Lúcia transmite não é de menor importância para o tempo atual que vivemos. A nossa época, marcada pela pandemia e pelos limites impostos por este minúsculo vírus, assiste à queda de paradigmas de convivência social, da vivência e celebração da fé, de modelos económicos que sustentaram a nossa civilização até ao momento. A nossa época é de tal modo dura que temos «necessidade premente da luz trazida pela palava profética»[4], comunicada à Lúcia e por ela transmitida.

Assim como «perante a queda de Jerusalém, Ezequiel fala para desvendar o sentido e o significado do que acontece a Judá», também perante a angústia e a incerteza do nosso tempo, Lúcia continua a falar, a apontar os caminhos que conduzem a Deus e à salvação que Ele oferece.[5] Apelando à adoração como atitude essencial diante do Deus único, denunciando tudo o que é idolatria (totalitarismo, materialismo, autorreferencialidade como critério único de tomada de decisões), Lúcia tem uma atitude muito semelhante à do profeta Ezequiel, quando aponta as causas da ruína de Jerusalém e do templo: a oferta de sacríficos a outros deuses, cultos idolátricos que povoam a história de Israel.

2. Lúcia, sentinela de uma “nova Jerusalém”

Quando Deus constitui Ezequiel profeta em Israel, fá-lo utilizando uma imagem muito expressiva: «A ti, filho de homem, Eu constituí-te sentinela da casa de Israel. Deves ouvir a palavra que sai da minha boca e adverti-los, da minha parte» (Ez 33, 7).

Uma sentinela é alguém que «que vigia, que dá o alerta em caso de perigo». Um profeta-sentinela é aquele que aparece nos momentos mais difíceis, nos períodos de grande crise, mas afirmando que ainda há tempo de evitar o pior, que podemos mudar o curso dos acontecimentos. De facto, um profeta-sentinela não profere condenações definitivas, mas antes revela a raiz dos acontecimentos e das situações para que estas possam mudar. O profeta-sentinela é, pois, o especialista do apelo à conversão, ao retorno ao Coração de Deus e à sua aliança.[6]

A mensagem dos profetas é sempre uma palavra de esperança. E Ezequiel, não obstante, num primeiro momento, confrontar o povo com oráculos de destruição e de ameaça, para suscitar o arrependimento, passa a anunciar a salvação e a consolação de Deus, sendo que a sua mensagem central é a da esperança. Israel será um povo novo, totalmente recriado pelo Senhor, pela sua misericórdia, pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tal como aqueles ossos secos ressuscitados (Ez 37) pela palavra de JHWH e que representam toda a casa de Israel.

O mesmo fará Lúcia de Jesus. Após anunciar o que lhe tinha sido dado a ver na aparição de julho, denunciando o pecado e as suas consequências (inferno, as guerras, perseguições à Igreja – estrutura tripartida do segredo), aponta a consolação e a salvação de Deus expressa no triunfo do Coração Imaculado de Maria. E indica o caminho: «Que havemos então de fazer? Recuar, voltar atrás, certos de que na casa paterna ainda temos um lugar, um Pai e uma Mãe que nos espera, mudemos de vida e vamos ao seu encontro, aí encontraremos o perdão, a graça e a força para oferecer-Lhes a reparação do nosso passado, com a fidelidade do nosso futuro, com as orações e os sacrifícios que, para ser fiéis a Deus, ao próximo e a nós mesmos, tenhamos que nos impor».[7]

Podem parecer estranhas, aos nossos ouvidos, algumas palavras transmitidas pela Lúcia, após os encontros com a Senhora do Rosário: «é preciso que se emendem…»; ou: «não ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido». Mas «aquele que não sente na própria carne o desfasamento entre Deus e o seu povo, que não intercede por este último, que não tenta salvá-lo chamando-o à conversão e ao mesmo tempo chamando Deus a ter misericórdia, não é um profeta».[8]

A mensagem dos profetas é sempre uma palavra de esperança. A iniciativa é de Deus: Ele é o protagonista e o agente deste percurso de conversão, de itinerário em direção à glória de Deus que o profeta contempla, ou da “nova Jerusalém” (Ap 21, 2) de que também falará o livro do Apocalipse.

Quanta esperança e consolação nesta promessa de Deus proferida por Ezequiel: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo» (Ez 36, 25).

A partir da experiência das aparições, de 13 de junho e de 13 de julho, Lúcia é também portadora de uma palavra de esperança. Uma palavra proferida por este “Coração novo” dado por Deus à Igreja do nosso tempo, o Coração Imaculado de Maria. Neste “coração novo”, imaculado, encontramos refúgio para as horas difíceis; com este coração imaculado podemos aprender a ser discípulos de Jesus; neste coração imaculado são gerados os filhos da nova aliança, comos nos diz o Concílio Vaticano II ao afirmar que Maria é verdadeiramente Mãe dos membros de Cristo, nossa mãe na ordem da graça (cf. LG 53.61).

O que o Senhor nos propõe e oferece, em Fátima, é a possibilidade de nos deixarmos tocar por dentro, pelo Seu Amor, o que possibilita uma «nova criação, uma transformação interior e pessoal».[9]

Lúcia entra de “corpo e alma nesta proclamação”[10] e faz do anúncio deste “coração novo” como “refúgio e caminho até Deus” a certeza da sua vida. Foi esta garantia, recebida na sua infância, que iluminou toda a sua longa jornada.

3. Lúcia de Jesus: uma palavra no silêncio

O profeta é um homem de palavra. Mas esta palavra não se exprime só com vocábulos: frequentemente no profeta toma forma de gestos ou ações, das quais podemos dizer que representam, por analogia, a sua mensagem. “A presença muito frequente de tais ações mostra que o ministério profético apanha o homem em todo o seu ser”.[11] Estes gestos simbólicos exercidos por vontade de Deus são, pois, uma forma de sublinhar a palavra profética. Encontramos isto em Oseias, onde o seu matrimónio é expressão do amor de Deus pelo povo, e em Ezequiel, em múltiplos momentos. Por isso o Senhor diz a Ezequiel: «Eu faço de ti um símbolo para a casa de Israel» (Ez 12, 6). E o início do seu ministério, foi precisamente um gesto simbólico: «Disse-me: “Vai e encerra-te na tua casa… Farei aderir a tua língua ao teu paladar de tal modo que emudecerás”» (Ez 3, 24.26). Vemos, pois, como, neste profeta, também o silêncio se converte em mensagem divina.

Na autobiografia que Lúcia escreve, por obediência à vontade de D. José Alves Correia da Silva, o Meu Caminho, podemos encontrar os traços de uma autobiografia teológica, ou seja, a clara evidência de que a narrativa que Lúcia faz de si mesma é já um falar de Deus, é já dizer algo sobre o Seu agir na história.

Porquê a sua atração pelo Carmelo, o lugar do silêncio e da clausura, quando a sua missão era anunciar a devoção ao Coração Imaculado de Maria?

A atração pelo Carmelo, em Lúcia, começa já na sua adolescência. Sabemos que, estando no Instituto de Santa Doroteia, e enquanto recorda a despedida dos lugares sagrados da sua infância e a sétima Aparição, Lúcia afirma: «Recordei a minha querida Nossa Senhora do Carmo e nesse momento senti a graça da vocação à vida religiosa e o atrativo pelo Claustro do Carmelo. Tomei por protetora a minha querida santa Teresinha do Menino Jesus».[12]

Em inúmeras circunstâncias vai exprimindo esse desejo e chega a escrever a D. José: «sinto cada vez mais viva a aspiração pelo recolhimento de uma clausura do Carmelo» (carta de 18 de fevereiro de 1947).

Esta consciência de que é profeta configurará a sua forma de ser: perseverante, fiel, ousada e corajosa. Nada a detém quando se trata de anunciar o que o Imaculado Coração de Maria lhe tinha dito. Mesmo que seja só por carta, a sua voz será ouvida até aos confins da terra, passando pelo Vaticano e por todos os que a ela se confiam.

No entanto, de forma eloquente, como para Ezequiel, na Lúcia, também o seu silêncio se converterá em mensagem de Deus para nós. Num mundo repleto de ruído e sedento de protagonismo, Lúcia não hesita em dizer: «Na verdade, não sou mais que o pobre e miserável instrumento de que Ele se quer servir… e que dentro em pouco, como o pintor que arremessa ao lume o pincel inutilizado, para que se reduza a cinzas, assim o Divino Pintor fará reduzir às cinzas do túmulo o Seu inutilizado instrumento, até ao grande dia das aleluias eternas”.[13]

Chegou a exprimir este desejo: «Gostava que não ficasse memória de mim»[14]. Lúcia esconde-se no segredo do seu claustro para que a luz da Mensagem brilhe intensamente. Como diria S. Paulo: «para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso» (2 Cor 4, 7). Foi o que fez Lúcia, fazendo do seu silêncio uma das palavras mais eloquentes do seu ministério profético.

É a profecia da vida escondida que cumpre a sua missão; o agir da Lúcia é um fazer feito de fidelidade à sua vocação de carmelita. Com a sua experiência profunda e alegre do dom de si, com os seus sacrifícios, os seus gestos e a sua oração, pode dizer como S. Paulo: «Agora alegro-me com os meus sofrimentos por vossa causa e completo na minha carne o que falta às aflições de Cristo em nome do seu corpo, que é a igreja» (Cl 1, 24). Bem compreendida, esta frase de S. Paulo ilumina a entrega da Lúcia. Na verdade, nada falta à Paixão de Cristo; o que está em falta é em nós, é na “nossa carne”, que falta. Falta que sejamos capazes de enfrentar o sofrimento da vida «com os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus» (Fl 2, 5).

Quando Deus manda Ezequiel partir de Jerusalém diz-lhe: «Tu, filho de homem, prepara a tua bagagem de emigrante e sai de dia, à vista deles. Sai do lugar onde te encontras, para outro lugar à vista deles. (…) Prepararás as tuas coisas como bagagem de exilado, de dia, à vista deles; e sairás à tarde, à vista deles, como saem os exilados.» (Ez 12, 1-4).

Quando, no dia 16 de junho de 1921, Lúcia deixa Fátima, fê-lo após o encontro com o Bispo de Leiria, que lhe pede que vá para o Porto. Dadas as saudades do que deixará e do medo do incerto futuro que encontrará, Nossa Senhora aparece-lhe uma sétima vez e diz-lhe: «Vai por onde te manda o Sr. Bispo, é a vontade de Deus». E Lúcia parte. Parte talvez com a consciência de que será emigrante em terra estrangeira e parte com a sua bagagem de exilada, uma pequena mala de viagem que sua mãe lhe comprou em Leiria.

Sobre essa mala, Lúcia escreve na Sexta Memória: «Ainda conservo esta mala, que me tem acompanhado pela vida fora: é a que levava para férias, com as minhas poucas coisas; levei-a para Espanha, quando fui para religiosa; levava-a todos os anos para a praia, quando por ordem do médico ia tomar banhos de mar; trouxe-a para Portugal, quando regressei, em 1946; e para o Carmelo quando vim; com licença das minhas superioras, é aí que guardo algumas coisas pessoais, que me dizem respeito; fiz-lhe uma capa de cotim cinzento para que se não estragasse e é a que levei a Fátima, as vezes que lá fui. É uma recordação da minha querida mãe».[15]

E quando, em 25 de março de 1948, Lúcia entra no Carmelo de Coimbra, o que leva consigo é aquela mala, na qual ainda sobrava espaço após lá ter colocado as poucas coisas que transportava. A sua bagagem de exilado era, sobretudo, o seu coração repleto das memórias do que viveu em Fátima, como que rezando com o Salmista… “Se eu de ti me não lembrar… se eu de ti me não lembrar, Senhora do Rosário, fique muda a minha língua” (cf. Sl 136).

Como nos interpelam as poucas coisas que Lúcia transporta consigo pela vida fora. Quanto nos interpela a pobreza real desta sua bagagem de exilada, esta pobreza que deixa espaço para o essencial da vida: a sua relação com Deus e a sua missão.

4. Entrega fiel da vida pela Igreja, a alegria do seu coração

Um outro traço luminoso sobressai da vida da Lúcia: a oferta da sua vida, pela Igreja. Será sempre a fibra mais delicada do seu coração, aquela a quem dedicará a sua oferta mais profunda, aquela que terá a porção mais intensa do seu amor. Pode dizer-se que a Igreja, foi, para a Lúcia, “a alegria dos seus olhos” (cf. Ez 24, 16), tal como fora para Ezequiel a sua esposa, a mulher por quem sofrerá de forma nova o luto, pela sua perda.

É de todos conhecida a sua intervenção e o seu papel a propósito da Consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria. Às múltiplas tentativas de se realizar esta consagração, por parte dos Papas, a Lúcia vai afirmar que o que falta é “união com todos os Bispos do mundo”. Lúcia reza, sacrifica-se, entrega-se por esta união “dos Bispos do mundo com o Papa”. Tem a sua alma de profeta ferida, em carne viva,quando toma consciência de que há divisões na Igreja. E a Igreja vai perceber essa oferta, essa entrega, em escondimento e silêncio.

Impressiona a mensagem que o Papa João Paulo II enviou ao Bispo de Coimbra, no dia seguinte à morte da Lúcia, a 14 de fevereiro de 2005: «Sempre me senti amparado pela oferta quotidiana da sua oração, especialmente nos duros momentos de provação e de sofrimento. Que o Senhor a recompense amplamente pelo grande e escondido serviço que prestou à Igreja».[16] João Paulo II compreendeu a missão de Lúcia.

Conclusão

No início da sua vida, Lúcia foi tocada pelo mistério de Deus de uma forma única e intensa. Durante a sua vida, teve de aprender a suportar o peso do mistério, a guardar no seu coração, na sua inteligência, na sua alma, a verdade do que lhe fora dado ver na luz que é Deus. Esta mulher foi chamada a viver esta vocação de profeta num quotidiano marcado pelo ritmo de vida de uma Carmelita Descalça, pelas relações que estabeleceu com tantas pessoas, pelos sofrimentos inerentes a alguém que era tão frequentemente incompreendida e caluniada no seu trabalho solitário, assim como pela dor humana que invadia a sua cela através dos largos milhares de cartas que recebeu. A dor humana que ela servia com as suas lágrimas, o seu sacrifício, o seu silêncio, o seu trabalho e a sua oração.

No Carmelo desenvolve a sua vocação mais profunda, maturando no silêncio a palavra com que dirá o Coração Imaculado de Maria. A partir deste silêncio a sua palavra ressoará límpida e luminosa, com os contornos de uma fecundidade que só se entende na lógica do «grão de trigo que morre para dar vida» (cf. Jo 12, 24).

Podemos dizer que o Carmelo foi, para a Lúcia, o seu caminho até Deus, o seu caminho de santidade.

Que luz maravilhosa irradia para o mundo, a partir da vida desta mulher!

A nós, herdeiros do testemunho desta religiosa, cabe-nos louvar a Santíssima Trindade e refletir esta luz que é Cristo Jesus, Senhor do nosso tempo e da nossa história.

Ângela de Fátima Coelho

26 de julho de 2020


[1] Lúcia de Jesus, Como vejo a Mensagem, Carmelo de Coimbra, 1ª Ed., Coimbra, 2006, p. 43.

[2] Franco Manzi, As crianças-profetas de Fátima: o olhar de três crianças sobre os Ressuscitados, Santuário de Fátima, Fátima, 2018, p. 25.

[3] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 2.

[4] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 7.

[5] Cf. Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 7.

[6] Cf. Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 37.

[7] Lúcia de Jesus, Como vejo a Mensagem, Carmelo de Coimbra, 1ª Ed., Coimbra, 2006, p. 45.

[8] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 40.

[9] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 57.

[10] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 3.

[11] Jesus-Maria Asurmendi, O profeta Ezequiel, Caderno Bíblico nº 59, Difusora Bíblica, Lisboa, 1997, p. 18.

[12] Lúcia de Jesus, O Meu Caminho, vol. I, citado em Carmelo de Coimbra, Um Caminho sob o Olhar de Maria. Biografia da Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, Edições Carmelo, Coimbra, 2013, p. 122.

[13] Lúcia de Jesus, Memórias da Irmã Lúcia I, Fundação Francisco e Jacinta Marto, 17ª Ed., Fátima, 2015, p. 135.

[14] Lúcia de Jesus, carta ao P. José Aparício da Silva, de 27 de janeiro de 1928. Citado por Luciano Coelho Cristino, As aparições de Fátima: reconstituição a partir dos documentos, Fátima, Santuário de Fátima, 2017, p. 109.

[15] Lúcia de Jesus, Memórias da Irmã Lúcia II, Secretariado dos Pastorinhos, 4ª Ed., Fátima, 2010, p. 176-177.

[16] Carmelo de Coimbra, Um caminho sob o olhar de Maria, p. 472-473.