logo_claro

Jacinta: o dom de si em tempo de pandemia

“O nosso mundo está doente. Não me refiro apenas à pandemia de coronavírus, mas ao estado de nossa civilização, que esse fenómeno global revela. Em termos bíblicos, é um sinal dos tempos”. Começava desta forma um artigo que Tomás Halík[1] escreveu, refletindo sobre este tempo único que vivemos. Como qualquer sinal dos tempos exige o nosso paciente e laborioso trabalho de compreensão, de escutar com o coração os sinais do Espírito de Deus presente e atuante na história. É-nos pedido o discernimento para evitar leituras apressadas e é-nos pedido um coração confiante no Senhor, sabendo que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). É-nos pedida a humildade de quem, ainda com as mãos vazias, não entende nada, ou quase nada, do que se está a passar, mas continua a viver na paz e na serenidade, porque sabe em quem pôs a sua confiança (cf. 2 Tm 1,12). Mas, porquê sendo este um artigo sobre a Jacinta, estou a falar desta pandemia? Parece-me desnecessário repetir que ela também viveu uma pandemia semelhante à nossa e que, precisamente há cem anos, experimentou as penosas circunstâncias que hoje vivemos. Ainda que as respostas às questões que angustiam o nosso coração possam não ser claras, a vida desta menina pode ser uma luz a iluminar os nossos passos no labirinto de emoções, de angústias e de medo, por onde caminha o nosso coração e a nossa mente, em dias de isolamento. 

E em épocas de medo não é necessário entender imediatamente tudo, as causas do que se passa, as razões científicas ou teológicas que explicam a situação que provoca a angústia e insegurança deste tempo. Por  vezes, como uma criança no escuro, basta o rosto sereno da mãe, para tudo voltar a ficar em segurança. Ainda que ela não entenda os mecanismos científicos das trevas!

A Jacinta pode ser este rosto sereno junto de nós, hoje. Ela conhece o desamparo por não podermos visitar os nossos doentes ou por não podermos ser visitados por familiares e amigos, ela sabe da dor de perder um irmão nestas circunstâncias. Ela sabe da falta de ar, da dor no peito, da fraqueza extrema de quem tem febre. A Jacinta entende a nossa solidão e a solidão dos que, no hospital, aguardam pelo escrever do seu futuro, na incerteza do capítulo seguinte. E ela conhece a solitária morte, apenas com a presença da Senhora de Coração Imaculado. A Jacinta sabe do que estamos a falar quando falamos das dores desta hora.

O que nos diria a Jacinta, esta menina tão discreta relativamente à sua dor? Sim, sabemos como ela se esforçava para que ninguém soubesse o quanto sofria, quais os sacrifícios que fazia, a renúncia que significava não ir visitar o Francisco no seu leito de doença, o quanto lhe custou ir para Lisboa sem a sua Lúcia.

Creio que a Jacinta nos falaria de Jesus, que estava triste e que ela apenas queria consolar. Falar-nos-ia do Coração de Maria, coberto de espinhos, e que ela tanto queria reparar. Dir-nos-ia do sofrimento do Santo Padre e que ela desejava amparar com a sua oração e o seu sacrifícios. Enfim, segredar-nos-ia o amor maior do seu coração, os pecadores, ou melhor, os pobres pecadores, e que ela ansiava tocar com a entrega de si. Contaria tudo o que amou, mas não nos falaria da sua dor. Porque pensava pouco em si. Tinha habituado o seu coração à compaixão. Tinha educado o seu coração para “fazer como Nosso Senhor”. Aprendeu com Ele o dom de si. E nem “a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo…” (Rm 8,35) a farão deter-se ou colocar limites a esta entrega, porque como diria Christian Bobin: “o que a atormenta não é nada comparado com aquilo que espera”[2]

Olhando para a Jacinta e para o modo como viveu uma situação idêntica à nossa, vemos as palavras de Paulo escritas a fogo e sangue no seu corpo ferido na direção do coração, e na sua alma feliz por sofrer por amor:

“Em tudo somos atribulados, mas não esmagados; confundidos, mas não desesperados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não aniquilados. Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo.” (2 Cor 4, 8-10)

Olhando para a Jacinta somos convidados a cuidar dos outros. Mesmo quando nos sentimos impotentes, mesmo quando o nosso lento martírio é o de não podermos fazer nada por aqueles que amamos. Porque é sempre possível cuidar pela oração e pela entrega em sacrifício, procurando contagiar de esperança os que começam a desanimar, a esperança que só nos é possível, mesmo em tempos de pandemia, porque o Senhor Ressuscitado está connosco. A Jacinta sabia disto e é disto que ela nos fala, nesta hora da história que é a nossa: “Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do Seu Coração! É tão bom!”

Ângela de Fátima Coelho, asm.


[1] Tomás Halík, Il segno delle chiese vuote, Milano: Ed. Vita e pensiero, 2020. [tradução livre].

[2] Christian Bobin, L’uomo che cammin