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Jacinta Marto: a menina que fazia Deus sorrir.

O que dizer sobre a Jacinta cem anos depois da sua morte?

O que dizer sobre a Jacinta que ainda não saibam…?

Sinto-me como a Lúcia que após ter contado tudo o que sabia sobre Nosso Senhor, os anjos, os santos, ouvia este pedido da Jacinta:

“Ensina-nos mais coisas, que essas já as sabemos”.

Provavelmente seria este o comentário que deveria ouvir da vossa parte, mas conto com a vossa amizade e, sobretudo, com o vosso imenso amor por Santa Jacinta Marto. 

Quando pergunto a amigos, conhecidos ou desconhecidos o que pensam da Jacinta, verifico uma reação que se tem mostrado constante… “Sobre a Jacinta?”, perguntam e, sem mesmo se aperceberam, sorriem…

Como se fosse impossível falar da Jacinta sem um sorriso…

Sabemo-lo, era a mais alegre e expansiva dos irmãos Marto canonizados, era a que gostava de festas, de dançar, de atirar flores à Lúcia, de se vestir como anjinho e “não” atirar flores a Jesus escondido, pois não O via.

Quando chegava a Jacinta havia festa e sorrisos e vida a girar à volta desta menina. Era especial, como o confirma o pai: “Nunca criamos nenhum outro filho como ela.” (Manuel Marto, Positio)

E se a conhecemos a um mesmo tempo sensível mas também amuadita, generosa mas também  “agarradita ao que era seu”, amiga de dar mas também de receber, conhecemos, simultaneamente, a sua profunda conversão.

Assim, cem anos depois da sua morte, quando ela parece mais viva do que nunca na memória do povo crente, penso na Jacinta como a menina que faz Deus sorrir:

pelo que nela Deus pode contemplar de traços do seu amado Filho, pela alegria expansiva do seu coração enamorado, pela generosa fidelidade do seu SIM, também Deus sorri ao ouvir falar da Jacinta.

1. Jacinta, a menina do SIM fiel a Deus

Foi em maio, profundamente tocada pela Beleza da Senhora, que a Jacinta pronuncia o seu SIM.

“Quereis oferecer-vos a Deus”, perguntou-lhe a Senhora do SIM mais puro que uma humana criatura pronunciou… o SIM que permitiu a encarnação do Verbo de Deus e o início da nossa redenção. O SIM de Maria, dado da “plenitude do tempo” (Gl 4,13), possibilitou a encarnação, possibilitou que o tempo e a eternidade se tocassem.

“Quereis oferecer-vos a Deus…?”

“Sim queremos”, disseram os três, disse a Jacinta.

E de novo, participando do SIM de Cristo ao Pai, este SIM da pequena Jacinta torna-se um momento onde o tempo toca a eternidade, onde a eternidade toca no tempo,

Ou como dirá o poeta T.S.Eliot: (Quatro quartetos)

“Mas apreender
O ponto de interseção entre o intemporal 
E o tempo, é tarefa para um santo” (Dry Salvages V)


[“But to apprehend
The point of intersection of the timeless
With time, is an occupation for the saint–]

Foi a tarefa da Jacinta, que começou com este SIM. Com o seu SIM trouxe Deus para o mundo e levou o mundo até Deus.

Claro que a Jacinta não poderia suspeitar as consequências do seu sim, mas disse-o…

E isto é tudo o que importa. “Sim, queremos”, queremos tudo o que Deus quer, como Deus quer, quando Deus quer.

Contudo e continua a poeta:

“na morte de uma vida vivida em amor,
Ardor, renúncia de si mesmo e entrega.” 

And taken, in a lifetime’s death in love,
Ardour and selflessness and self-surrender.”]

A Jacinta disse Sim em toda a sua vida, mais ainda na “morte da sua vida vivida em amor”. O diálogo que tem com a Lúcia, antes do Francisco morrer é bem conhecido:

“Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim.”

Um novo SIM, ou melhor, o mesmo sim, o do princípio, agora amadurecido pela sua livre e consentida participação no mistério pascal de Jesus. 

“Disse-me que ia para um hospital, que lá sofreria muito; que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria e por amor de Jesus. Perguntei se tu ias comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me e, depois, fico lá sozinha!”

Jacinta tinha uma amor especial por Jesus Crucificado.

Sabemo-lo pelo abraço que deu ao Crucifixo na casa da Lúcia, um abraço que é ícone da sua vida marcada pelo desejo de permanecer neste abraço, sabemo-lo pelo testemunho de tantos no seu processo de canonização:

“Quando fazíamos a Via-Sacra, ela já não podia por causa da doença, pegava apenas no Santo Crucifixo e beijava-o frequentemente com muito amor, como eu mesma via.” (Madre Godinho, Positio).

Assim, a participação da Jacinta no mistério pascal de Jesus tem os contornos da experiência intensa da solidão de dois hospitais, da sede que nada saciará, nem a comunhão eucarística que lhe foi negada no último dia nesta terra, da ferida no peito que se tornou a metáfora do seu coração amante e compassivo, a tal “ferida na direção do coração”.

Quanto a Jacinta terá amado essa ferida que a configurava com o Coração trespassado de Jesus?! Não o sabemos… o melhor dos santos está guardado no coração de Deus, mas sei que a Jacinta pronunciou com a vida a oração que uma jovem que conheço rezava ao pensar na ferida da Jacinta:

“Beijo a ferida que me deste

E o teu fardo em bruto

sobre os meus ombros

A fazer-me dançar”  (Verónica Benedito, asm)

A Jacinta beija a ferida e continua a dançar: é esta a força do dinamismo pascal na vida e na morte da

Jacinta.

É tão grande o seu desejo de “morrer por amor”, já que por amor estava a viver, que dará como recado ao Francisco, antes dele partir para o céu:

“Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora [um outro modo de dizer amo-os muito] e diz-Lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem, para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria”.

Só um santo reza assim!

Só um santo quer que seja esta a súplica que um outro santo faça ao “chegar” ao céu…

“… diz-Lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem, para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria”.

2. Jacinta, a amiga de Nosso Senhor, o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas

A pequena pastorinha, quando pegou naquele cordeiro ao colo, “para fazer como Nosso Senhor”, o Bom Pastor, não suspeitaria que estava a mostrar o seu coração, mais do que provavelmente desejaria.

É próprio dos santos não quererem o foco sobre si mesmos… sabemos como ela se esforçava para que ninguém soubesse o quanto sofria, quais os sacrifícios que fazia, o quanto lhe custava tomar a comida que a mãe queria, ou a corda à cintura.

Eram tão discretos – os santos são todos discretos no que toca à sua interioridade – que a mãe afirmava: “Não entendo; a vida destas crianças é um enigma!”

Mas, dizia eu, estava a mostrar o seu coração.

Um coração profundamente compassivo e sensível ao sofrimento dos outros.

Como Jesus, que “vendo uma grande multidão, teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, então, a ensinar-lhes muitas coisas.” (Mc 6,34).

Jacinta foi uma destas meninas a quem Jesus através da sua Mãe, ensinou muitas coisas. 

“– Não vês tanta estrada, tantos caminhos e campos cheios de gente, a chorar com fome, e não tem nada para comer? E o Santo Padre em uma Igreja, diante do Imaculado Coração de Maria, a rezar? E tanta gente a rezar com Ele?”

E ela percebe que a sua vida entregue no amor vale a vida de tantos outros. Por isso dirá a Lúcia: “A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício.” 

E quando a foi ver no hospital de Ourém: “Perguntei-lhe, então, se sofria muito.

“– Sofro, sim; mas ofereço tudo pelos pecadores e para reparar o Imaculado Coração de Maria. Depois faloucom entusiasmo de Nosso Senhor e de Nossa Senhora […]  Encontrei-a com a mesma alegria por sofrer poramor de nosso bom Deus, do Imaculado Coração de Maria, pelos pecadores e pelo Santo Padre; era o seuideal, era no que falava.”

Sofrer por amor: era o ideal da Jacinta. Com os seus sofrimentos, orações, com o seu tempo partilhado com os outros, viveu o que Bernard Sesbuè afirmou:

“se cada alma que se eleva eleva o mundo, toda a penitência vivida no amor é uma intercessão que contribui em Cristo à libertação da humanidade pecadora”.

Esta era a ânsia mais profunda do seu coração, “contribuir em Cristo à libertação da humanidade pecadora”. Mesmo quando a Lúcia lhe dizia para não pensar no inferno, porque ela até sabia que ira para o Céu, a Jacinta respondia:

“– Pois vou, mas eu queria que toda aquela gente para lá fosse também.”

Esta é a Jacinta, uma menina que não se cansa de se oferecer pelos outros. E que não tem medo do que lhe será pedido no seu percurso de fidelidade ao dom recebido.

Ela não quer colocar limites à sua entrega e por isso não teme: “vive com Ardor, renúncia de si mesmo e entrega.” [Ardour and selflessness and self-surrender]

E nem “a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo…” (Rm 8,35) a farão deter-se ou colocar limites a esta entrega,  porque como diria Christian Bobin:

“o que a atormenta não é nada comparado com aquilo que espera”!

[“Si direbbe che ciò che lo tormenta è nulla rispetto a ciò che egli spera.”  In L’uomo che camminaChristian Bobin]

E uma menina assim, que sabe que nada a separará do amor de Cristo (Cf. Rm 8,39), faz Deus sorrir.

3. Jacinta, a amiga da Virgem Maria.

A Jacinta tinha morrido, há pelo menos 17 anos, quando a Lúcia lhe rezava:

Ó tu que a terra passaste, 

Jacinta querida,

Sê minha amiga

Junto do trono

Da Virgem Maria.

A Lúcia não hesita em afirmar que a Jacinta tivera de Deus uma Luz particular para compreender  o Coração Imaculado de Maria

“Já disse, no segundo escrito, que Nossa Senhora, a 13 de Junho (de) 1917, me disse que nunca me deixaria e queSeu Imaculado Coração seria o meu refúgio e o caminho que me conduziria a Deus. Que foi ao dizer estas palavras que abriu as mãos, fazendo-nos penetrar no peito o reflexo que delas expedia. Parece-me que, em este dia, este reflexo teve por fim principal infundir em nós um conhecimento e amor especial para com o Coração Imaculado deMaria;  assim como das outras duas vezes o teve, me parece, a respeito de Deus e do mistério da Santíssima Trindade.Desde esse dia, sentimos no coração um  amor mais ardente pelo Coração Imaculado de Maria. A Jacinta dizia-me, de vez em quando:

– Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do Seu Coração! É tão bom!

E acrescentará “a Jacinta foi, segundo me parece, aquela a quem a Santíssima Virgem comunicou maior abundânciade graça, conhecimento de Deus e da virtude.”

De facto não podemos pensar na Jacinta sem pensar em Nossa Senhora, no seu zelo para que a Lúcia faça sempre a sua vontade:

“Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Ima­culado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a toda a gente que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar‑me e a fazer‑me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria”.

Rezar o terço foi o modo de fazer companhia e viver no Coração Imaculado de Maria!

4. Jacinta, nossa irmã, uma “luz amiga” a pedir por nós.

Comove-me muito o episódio de 10 ou 11 de agosto de 1017:

“Um dia, os pais dos pastorinhos foram intimados para os apresentarem em Ourém. Os pais de Francisco e da Jacinta não os levou, mas o pai de Lúcia decidiu que seria a sua filha a conversar com o administrador. Eis o que conta a Lúcia, nos seus escritos: “Corri à cama de Jacinta a dizer-lhe adeus. Na dúvida de nos tornarmos a ver,abracei-a. E a pobre criança, chorando, disse-me: – Se eles te matarem, diz-lhes que eu e mais o Francisco somos como tu e que também queremos morrer. E vou já com o Francisco para o poço rezar muito por ti. Quando, ànoitinha, voltei, corri ao poço e lá estavam os dois, de joelhos, debruçados sobre a beira do poço, com a cabecinha entre as mãos, a chorar. Assim que me viram, ficaram surpreendidos: – Tu vens aí?! Veio aqui a tua irmã buscarágua e disse-nos que já te tinham matado. Já rezámos e chorámos tanto por ti!…”

Sei, tenho a certeza de que a Jacinta HOJE, no céu, continua a “rezar tanto por nós”.

Ela mesma garantiu à Lúcia: “Perguntei-lhe uma vez: – Que vais a fazer no Céu?

– Vou amar muito a Jesus, o Imaculado Coração de Maria, pedir muito por ti, pelos pecadores, pelo Santo Padre, pelos meus pais e irmãos e por todas essas pessoas que me têm pedido para pedir por elas.

Nas nossas dificuldades ouça-a dizer:

“sou como tu… e já rezei tanto por ti…”

“nas lutas, dificuldades, na aridez, na doença, 

“sou como tu.. já rezei tanto por ti”

Celebramos os 100 anos da morte da Jacinta.

Como foi o momento da morte da Jacinta.. não temos ninguém que no-lo conte.

Morreu sozinha.

Mas a Lúcia conta a sua partida para Lisboa.

“Chegou, por fim, o dia de partir para Lisboa. A despedida cortava o coração. Permaneceu muito tempo  abraçadaao meu pescoço e dizia, chorando:

– Nunca mais nos tornamos a ver! Reza muito por mim, até que eu vá para o Céu. Depois, lá, eu peço muito por ti. Ama muito a Jesus e o Imaculado Coração de Maria e faz muitos sacrifícios pelos pecadores.

De Lisboa, mandou-me ainda dizer que Nossa Senhora já lá a tinha ido ver; que Ihe tinha dito a hora e dia em quemorria; e recomendava-me que fosse muito boa.”

Foi esta a última recomendação para a Lúcia!

Que fosse muito boa.

E a Lúcia foi… foi muito boa, a vida toda…

E a Lúcia fez tudo o que a Jacinta lhe pediu.

Um dos mais belos diálogos entre a Lúcia e a Jacinta começa com um pedido:

“Lúcia, conta-me como foi….?”

E a Lúcia, “que era a contadora de histórias da sua aldeia” (Ângela Oliveira, asm), viveu a sua vida a “contar como foi”, como foi o mistério do Anjo que lhes segredou o amor do Jesus escondido, como foi o mistério da Senhora mais brilhante do que o Sol que lhes mostrou o seu coração refúgio e caminho… como foi a vida do Francisco, o menino enamorado de Deus, e como foi o mistério da Jacinta, a menina com o coração do tamanho do mundo, porque amigo do Coração de Maria.

Hoje estamos também muito gratos a Lúcia de Jesus, porque nos contou como foi…

Como foi possível a uma menina tão pequenina abrir-se à graça do amor de Deus e transformar-se numa “luz amiga” (João Paulo II) que nos acompanha.

O mundo tem necessidade de santos assim, destes “gigantes equilibradores de amor” (Leonard Cohen). Porque fazem Deus sorrir, e nos ensinam o segredo da felicidade.

Obrigada!

Ângela de Fátima Coelho, asm

20 de fevereiro de 2020